segunda-feira

Parto e as primeiras horas

Aposto que vc já ouviu falar coisas terríveis sobre o parto cesárea, não foi ? Pois é, eu também. Mas eu estou prestes a compartilhar com vc um depoimento bem favorável à cesárea. Note, não sou uma entusiata deste tipo de parto. Nem tenho nada específico contra ele. Acho que a escolha deve ser do casal e do obstetra e deve considerar cada cenário, cada gravidez. No meu caso, o parto normal deixou de ser uma alternativa por volta do sétimom~es, quando a pressão começou a subir por razões emocionais apenas. Daí em diante, a pressão arterial manteve-se em alta constante ( pelo menos 13x9 ) e ficou claro que a casárea seria mesmo a indicação.

Eu não tinha medo. Desprezei muitas histórias e depoimentos que me contaram. Não pensei em nada, só no que seria melhor para mim e para a Ana Luisa. Com pouco mais de 7 meses, quando o exame acusou incisuras uterinas, a gravidez começou a ser um risco até mesmo para mim e a cesárea era só uma questão de dias.

COMO FOI ?

Cheguei ao hospital às 06 para a cesárea marcada para às 08. Demos entrada nos papéis e aguardei me alocarem num quarto e me orientarem. Tiraram pressão arterial, me deram um roupão hospitalar para vestir. Quando estava pronta, fui levada para uma sala pré-cirúrgica.



Checaram o laudo pré-anestésico, minhas últimas ecografias, cobriram meus pés para que ficassem aquecidos. Meu marido ficou comigo. Duas enfermeiras vieram colocar um cateter e um soro em mim. Nem quero cmeçar a descrever o tamanho daquela seringa. Grande e grossa para uma coisa que ia espetar meu pulso !!
Aquilo doeu MUITO. Uma lágrima solitária deve ter escorrido pelo meu rosto. Não lembro. Só lembro da dor.

Quando me levaram para a sala de cirurgia, eu estava assustada com a dor do cateter mas estava bem. Todos riam, conversavam entre si e comigo. O estado de espírito geral era ótimo. Tinha um alto astral no ar.

Uma enfermeira conversava comigo e me dava algum conforto. pedi a meu marido que não me deixasse ver o tamanho da agulha da anestesia. Sabe como é... o que os olhos não vêem... :) Ele foi perfeito nisso. Até hoje não sei como é a agulha !

Recebi ajuda para sentar na maca e colocar o corpo bem inclinado para a frente. Quando mais para frente vc ficar, mais fácil para o anestesista. Eles aplicaram uma anestesia local e, por cima dela, a anestesia da cesárea ( RAQ ). Não senti nada. Uma picadinha sutil, indolor, imperceptível. O cateter ( que continuava dolorido ) foi infinitamente pior.

Na minha frente foi pendurado um pano cinza que tapava completamente a minha visão de todo o resto da sala. Daí em diante, eu não via nada e não sentia nada dos seios para baixo. Uma sensação engraçada de leveza, de vazio. Eles já tinham feito o corte e eu não sentia nada, nada, nada. O anestesista veio fazer pressão na minha barriga. Isso ajudaria o obstetra a tirar a Ana Luisa da barriga. Senti uma mão empurrando a minha barriga e só.

De repente, silêncio na sala. Uma ameaça de choro que durou um segundo e de repente todas as pessoas saíram da sala. Ficaram apenas o obstetra e sua auxiliar. Silêncio. Ninguém mais falava comigo. O André me deu um beijo na testa e me disse que ia acompanhar a Ana Luisa. Aonde estava aquele choro estridente que todo mundo diz que é a primeira reação do bebê ao nascer ?? Quando iam trazer minha filha para eu ver ? Estavam apenas limpando ela ou havia algum problema ? Eu tinha muitas perguntas, nenhuma resposta e nenhuma condição de levantar daquela mesa...

Em meia hora o parto estava terminado e eu estava recosturada. Antes de ir embora, pedi ao obstetra que checasse minha filha, que me dissesse alguma coisa... Ela estava bem ? Aonde estava ?? Qq resposta eramelor que nenhuma. Ele voltou com respostas básicas, o mínimo de informação para me acalmar. Ela estava bem mas precisou ir para a UTI neonatal tratar um desconforto respiratório. Parecia simples...

Fui levada a uma sala de pós operatório até que o efeito anestésico passasse. Aquela espera foi angustiante. Além de mim, outras mães estavam lá. Todas, cedo ou tarde, recebiam seus bebês, menos eu. Elas me perguntavam e eu não tinha respostas satisfatórias nem para mim mesma... Uma pediatra apareceu e repetiu o que o obstetra tinha me dito. A angustia aumentava. Àquela altura eu queria mais que respostas. Queria ver minha filha, fosse do jeito que fosse, na UTI ou fora dela.

Como sabemos, querer não é poder. Depois que a anestesia passou mais e comecei a ser capaz de mover as pernas, fui levada ao quarto aonde o André, minha mãe e minha tia Lúcia já estavam. Fui recebida com carinho e ansiedade. Só então vi a Ana Luisa pela primeira vez, mas ainda por fotos. Foi um choque, um alento, tudo ao mesmo tempo.

O parto começou às 08, a Ana Luisa nasceu às 08:28, eu subi para o quarto às 11 e às 16 fiz minha primeira refeição desde a noite anterior ( estava em jejum total, inclusive de água, mas não tinha fome ). Depois da refeição, o banho. A enfermeira vem ajudar e pergunta quem é o obstetra. Quando falo o nome do meu, ela responde rapidinha :

- Ah, ele não gosta de curativo e nem cinta. É só lavar com bastante água corrente.

E foi o que fiz. Levantei da cama sozinha, quase sem ajuda. Estava bem ereta ( coisa que me diziam que seria impossível se fizesse cesárea ) e segura. Tomei banho e lavei o local da cirurgia com água e sabão. Secamos e foi só. Não havia sangue, não tinha curativo algum e só se viam 3 pontos. O meu obstetra faz ponto de cirurgia plástica, interno em sua maioria, e faz o mínimo externo. Sem falar que ele faz o corte beeeeeeeeeeem embaixo, super discreto. Achei ótimo.

Saí do banho apressada. Já estava bem e pensava só em ver a minha filha. Ela estava na UTI ainda e foi para lá que fui. Entrar numa UTI Neonatal é delicado. A higienização deve ser cuidadosa e bem feita. Lavei os braços, as mãos, coloquei um novo roupão hospitalar. Esperei ser autorizada a entrar e recebi as primeiras informações sobre o estado de saúde da Ana Luisa. Ela estava com uma sonda no nariz, um cateter na mão, só de fraldas, na incubadora.

O QUE SENTI ? Um alívio enorme por vê-la, um medo imenso por vê-la ali daquele jeito e uma sensação terrível de impotência que se repetiu várias vezes até que saimos do hospital. A primeira vez que a toquei foi dentro de uma incubadora. Amamentei a primeira vez dentro de uma UTI, com minha filha ligada a um cateter e a um computador que emitia uns sons e apitos que monitoravam os sinais vitais dela. Dava vontade de arrancar tudo e sair com ela dali. É claro que aquilo era uma ajuda, e eu sabia disso, mas não era assim que eu queria ver a minha filhinha. Para uma mãe de primeira viagem, aquilo estava bem fora do script.

Ninguém me disse e não há prova alguma do que vou dizer mas gosto de pensar que amamentá-la foi um diferencial importante que a ajudou a sair mais rapidamente da UTI. Sentia que compartilhávamos uma força, uma energia que era boa para ela. Voltei à UTI, sempre que me deixavam, para dar um minuto que fosse de mamada. Ela tinha dificuldade em sugar e por isso um minuto ganhou proporções de uma hora para mim.
Até o tempo muda de referência quando se tem filhos...

Quando ela veio pro quarto, achei que estávamos com um pé na porta, mas aí, na hora da alta, o pediatra notou um comecinho de icterícia e lá vamos nós para um novo tratamento. NAquele momento eu estava exausta de esperar sair com ele e ter sempre uma "coisinha" que ainda impedisse. Desta vez ela fez fototerapia. Montamos uma "casinha" no quarto do hospital e colocamos ela no meio, com os olhos cobertos, tomando uma luz azul um dia e uma noite inteirinhos. Isso exigiu vigilância constante, 24x7, pois a luz é danosa aos olhos e a Ana Luisa insistia em retirar a venda sempre que tinha uma chance. Foi uma noite que mudou o sentido da palavra DIFICIL para mim. Aliás, esses 4 dias na UTI fizeram isso. Difícil foi não ouvir minha filhinha chorar ao nascer, foi passar 9 horas sabendo que ela estava na UTI e sem poder vê-la, foi vê-la nas primeiras horas de vida ligada a sondas e cateters e depois vê-la no tormento da fototerapia. ISSO É DIFÍCIL. O resto, as coisas que eu até então achava difícies, ficou claro pra mim que eram bobagens, coisa da vida. Foi nesse momento que a minha ficha caiu. Eu agora sou Mãe.

Um comentário:

Anônimo disse...

Amiga, nao preciso nem dizer o quanto fiquei orgulhosa pelo seu sucesso em enfrentar um PARTO com tanta coragem! Aprendi muito com seu post e nao vou querer pensar em comparar a sua experiencia com nenhuma que eu possa vir a ter, mas depois de ter lido tudo isso, to criando coragem pra engravidar porque sei que pode ser que eu seja forte, mas me sinto frouxa... Vc nem sabe... Amo sua filhota, ela eh a coisa mais linda, um rostinho fofuxo e imagino que a cada olhadinha que vc da nela compensa cada minuto das 9 horas de espera, o cateter e a incubadora. Desejo a voces a maior felicidade do mundo pois sei que essa petit ai so vai te trazer sorrisos... Mil beijos!!! Saudade!